Uma escola diferente.

Todos os dias ao entrar na escola do Gi, meu filho mais velho, ainda fico surpresa (talvez assustada) em ver aquela criançada toda sozinha, livre. Pelos cantos ou no meio do pátio, elas estão ali estudando, brincando, cantando, correndo, dormindo, lendo, jogando xadrez, conversando, recitando, tocando piano… de repente um passa com uma bandeja de bolo na mão, cheiroso, acabaram de fazer!

Os professores sobem e descem as escadas, entram e saem das classes sempre rodeados de crianças, como se fossem super amigos, e são. Tem sapato por todo lado. Mas o Gi nunca perdeu o dele. É uma “bagunça” que funciona. Na classe do Gi, primeira, segunda, terceira e quarta série tudo junto, todos juntos. Difícil de imaginar como transformar aquela energia toda em aprendizado. O professor não é o único a falar e nem o único a escolher, formular regras, cobrá-las. Os alunos são atuantes e participam verdadeiramente disso. A frase “regras são regras” está entre as dez mais faladas pelo Gi.

Os alunos são gentis, seguram a porta para eu passar com o carrinho do Lucca, meu bebê. Porta esta que está sempre aberta para quem quiser entrar ou sair, ai que medo! As angústias de mãe são tantas. De mãe pedagoga mais ainda rs. Nunca vou achar a escola ideal. Será que ela existe? Será que ela precisa existir? Embora esta se aproxima muito do que sempre sonhei para uma escola, a “crença” na escola tradicional às vezes me assombra.. A solução? A solução é levantar as mangas, continuar e complementar o “trabalho” em casa. A satisfação de vê-lo feliz, crescendo como aluno e principalmente como pessoa, diminui a angústia e alegra meu coração…

A escola do meu filho chama-se Einchendorff Schule, e possui uma metodologia baseada nas escolas democráticas. Ele possui semanalmente um guia de tarefas a ser cumpridos, de matérias a serem estudadas. Porém, ele é livre para fazê-las no momento em que achar melhor. Então bate aquela insegurança, sabe?! Meu filho, como toda criança, trocaria fácil essa lista de tarefas por brincar, brincar e novamente brincar. Meu medo era justamente dele tornar-se desmotivado a aprender.

Mas ao longo desses últimos meses (ele estuda nessa escola desde maio/2013) percebo que isso não ocorreu, ele brinca e sabe cumprir, também, suas obrigações. Enfim, não é uma escola de loucos onde as crianças apenas brincam, como cheguei a pensar em alguns momentos. E sim, uma escola que leva a sério a construção integral do ser, ou seja, uma escola que almeja educar as crianças enquanto alunos e pessoas. Não é algo técnico, como muitas escolas que preparam o aluno desde pequenos para passar no vestibular, e muitas vezes, se esquecem de preparar estes alunos para a vida, agentes na sociedade. Estudar a vida inteira apenas para passar no vestibular, talvez seja algo egocêntrico demais.

Escolas como a Eichendorff ainda chocam por serem muito diferentes das primeiras escolas, nascidas nas indústrias, mas que sobrevivem ate hoje, as chamadas escolas tradicionais. As escolas democráticas, ou as Escolas Novas, nos mostraram que é possível ensinar diferente, de forma livre e com sucesso.

“… onde havia autoritarismo, haveria democracia, onde havia valores conservadores, haveria os ideais de justiça baseados na igualdade e equidade, onde havia desrespeito, haveria carinho e amor … Foi neste contexto político pedagógico que autores como Jean Piaget começaram a realizar investigações cujos resultados quase sempre referendaram a visão otimista dos escolonovistas em relação à criança:… com liberdade, ela (a crianca) é capaz de desenvolver a capacidade de autogoverno, poupada do autoritarismo adulto, de seus sermões e castigos, é capaz de alcançar a autonomia moral; ao abrigo das tiranias curriculares, é capaz de organizar sua aprendizagem.” Yves de la Taille.

Apenas para deixar registrado, a primeira escola democrática surgiu em 1850. Desde então, somam-se mais de 195 escolas em 29 países. E foi baseado em inúmeras pesquisas, reportagens e livros sobre este tipo de escola, que decidi, juntamento com meu marido, deixarmos o Giovanni nela (apesar de ser uma escola em que sempre sonhei em trabalhar, estudar, enfim, que sempre desejei conhecer, quando me deparei frente a frente com a possibilidade do meu filho estudar em uma delas, fiquei, inicialmente, insegura).

O que vocês pensam sobre as escolas democráticas? Quais as experiências de vocês, positivas ou negativas, com esta estrutura pedagógica? Hoje teremos reunião de pais na Einchendorff… Oba! Dia de saber um pouquinho mais sobre como meu filho se comporta longe de mim, de saber se estou no caminho certo para uma boa educação de valores.

Fonte:

Singer, Helena. República de Crianças. Sobre experiências escolares de resistência. Mercado das letras. 2010.

“Freie Schulen: Eine weltweite Bewegung”, 1997, Singer.

Deixo um link para um artigo interessante sobre o tema:

   http://www.publico.pt/temas/jornal/quando-a-escola-deixar-de-ser-uma-fabrica-de-alunos-27008265

A Super Mammy.

 

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